segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Um café e um arco-íris

 




Percorreu a rua do costume e entrou no café dos candeeiros grandes que reflectiam a luz num mágico jogo de cores.
Sentou-se e pediu um café. Cheio, para preencher os espaços vazios.
Enquanto esperava olhou para os pequenos arco-íris formados no tecto pelas luzes a brincar. Teve saudades do cheiro que tinha o céu quando era criança e quando os arco-íris eram reais e tinham mais do que sete cores.

Pegou na chávena e saboreou o quente do café. Como a areia fina onde enterrava os pés nas tardes de Verão de uma adolescência feliz e intensa.
Sorriu na direcção da mesa em frente, enquanto sentia a solidão arrastar uma cadeira e sentar-se ao seu lado.

Alguém abriu a porta para sair. Sentiu frio, como sentia agora todos os dias ao chegar a casa. Aquele frio que vem de dentro e que sentia de todas as vezes que, em frente à lareira, o fogo lhe reflectia no olhar as ausências em que não queria pensar.

Pagou enquanto fingia que acreditava no olhar simpático que a atendeu e saiu rapidamente a tentar despistar a desilusão.
Mas lá fora o céu já não tinha cheiro. Lá fora o calor das memórias desvaneceu-se no presente.

E enquanto regressava pela rua do costume, já não soube fingir mais, e chorou um rasto salgado para que a solidão não se perdesse no caminho.




10 comentários:

Brain disse...

Cada vez MELHOR!
Muito bom!
Adorei!

Beijo Meu.

Phantom disse...

Já reunias alguns dos teus textos aqui do blog e publicavas, não?

Fantástico!

Tiago disse...

Uma imaginação acima do arco-irís, repleta de sentimentos k deixam transbordar aquilo k é bom de ler e de se refletir. Excelente!! §

Rafa disse...

Quando te leio, nunca consigo perceber bem se falas de ti ou não.
Acho os teus textos fantásticos, com muito sentimento... com muito de ti.

A solidão, é uma óptima companhia para fazer amigos.
É quando estamos com ela, que mais vontade nos dá de conhecer novas pessoas que desenhem arco-íris nas nossas vidas. Mas também é com ela, que lembramos os que outrora foram desenhados.

Este texto faz-me lembrar a mim.

**

DUDU disse...

Claudinha como sempre arrasando nos seus textos...parabéns...

Paulo Abreu e Lima disse...

Mais vale lágrimas compulsivas do que esse torpor sinalizado, Cáudia. É que este último pode matar; já as lágrimas, libertar.

Gui disse...

Uau,sem palavras estou eu!
Revejo-me neste texto.
A solidão nunca nos abandona!

Desculpa a ousadia de comentar,mas gosto de te ler,identifico-me com muitos dos teu textos.
Boa sorte no regresso "pela rua do costume"que o "rasto salgado" não volte a ser chorado.

Sioux disse...

Gostei muito deste texto, é apenas mais texto excelente entre todos os outros que por aqui já li. São sentidos, consigo encontrar-me aqui porque são também estes sentidos que vivem em mim. Confesso que me revi, senti.

Bjo

Sara S. disse...

Compreendo, de certo modo, o sentimento que é descrito. Mas pode ser que de uma proxima vez a personagem tenha a companhia, a ocupar o lugar ao lado dela.
Gostei dos factos envolventes, do café e do arco-íris e também das óptimas comparações que foram feitas. Gostei deste belo texto. Beijinhos

OLHAR VAGABUNDO disse...

belo texto...

beijo vagabundo