Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Slow Motion




Respiro em câmara lenta.
Assim acelero a forma como o mundo me chega.
Mas absorvo-o devagar.
Prolongo a onda na sua curva perfeita antes da sua igualmente perfeita rendição.
E só depois desço as pálpebras.
Rapidamente, para que dentro de mim, o ondular desse estranho mar permaneça lento. Uma espécie de eternidade que falsamente fabrico para que o que acontece dure mais. O que existe, exista mais.

Em câmara lenta às vezes até a tristeza me faz sorrir.
Em câmara lenta apercebo-me de como afinal a rua está vazia.
A rua está muito mais vazia hoje.
...
...
...
Visto o casaco e adormeço. Ou morro.
Sempre a mesma dúvida.
...
...


Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Roteiros Interiores




A voz dele chegou-lhe suave do outro lado da linha. Do outro lado do amor.

Foi no dia da mesma manhã em que a água lhe pareceu mais fria. Mais áspera a cair na pele nua que as suas mãos apertam na tentativa de reencontrar a sensação das dele. As dele. Que tacteiam agora coisas diferentes, coisas que ela não conhece. Do outro lado da paixão.

A voz dele fez com que ela percorresse outra vez todos os caminhos interiores que conduzem inevitavelmente aquela ternura tão forte que faz chorar. Aquela ternura que se sente poucas vezes numa vida. Do mesmo lado do amor.

Roteiros interiores de estradas humedecidas por lágrimas que ela já não sabe chorar. As que chora agora são diferentes. Não chegam a secar. Ele não está lá para as afastar.
Mas mesmo do outro lado da linha ela sente-lhe o carinho no olhar.
Quase adivinha o sorriso sincero no encontro das duas vozes. Aquele sorriso que gostava de poder guardar em qualquer sítio mais especial do que a simples memória. Do outro lado da vida.

Ela não conseguiu dizer-lhe tudo. Tentou, mas sabe que nunca se consegue dizer tudo.
Ás vezes, como uma criança, atira-se para cima da cama ao som de uma música antiga, e deixa-se ficar a imaginar que ele sabe. Que ele sabe tudo o que ela sente. E que acredita. Do outro lado do sonho.

Custou-lhe lembrar-se que a voz dele ia continuar depois de pousar o auscultador. Não para ela. Mas do outro lado da linha. Confortou-se com a suavidade que durante uns minutos a acariciou. Não foi sempre a voz dele uma carícia?... Do outro lado do tempo.

Ficou em silêncio. Fechou os olhos e deixou-se viajar.
Por espaços e recordações e sítios que não conhecem longe nem perto.
O auscultador suspenso na mão. Como se fosse só mais uma frase, como se fosse só mais um beijo. Suspensos...

Todo o amor que ela sente por ele. Aqui. Como uma brisa. Do outro lado de Mim.



Domingo, 15 de Março de 2009

[ . ]






Ás vezes não pensar é uma questão de sobrevivência.
Tento não pensar. Mas dói-me tanto o silêncio.
E este vazio que é tão pesado e tão cheio de imagens às quais já não sei dar sentido.

Perdi-me no caminho e já não sei se me lembro das minhas promessas.
Vou lá fora procurar qualquer coisa que não seja esta ausência de ti, mas é de noite. E todas as noites eram nossas.
Fujo para dentro de mim. Mas é precisamente lá onde mais estás.

Não tenho conseguido descodificar os dias. Movo-me por instinto e fico à espera que as horas acabem por se cansar mais do que eu e decidam deixar de existir.
Sento-me sozinha em espaços que ainda têm pedaços de nós e dou por mim a pedir que me deixem chorar. Só mais um bocadinho... Para ver se acordo ou se passa a culpa por não ter sabido desenhar um sorriso feliz no teu rosto todos os dias.

São 22h43m. Há muito que a escuridão se instalou. Ouço ao longe o barulho do mundo, da vida a acontecer. Lá fora, onde as estrelas estão demasiado altas.
Os meus olhos ardem.

Sinto-Me tão longe de mim.

[ . ]


Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Intersecções





Ás vezes, apenas por um momento, a vida pára.
Para nesse instante podermos ser tudo.
Sentir tudo.
Qualquer coisa que tenhamos em mente pode, de repente, tornar-se real.
Talvez nem sempre estejamos suficientemente atentos para notarmos que está a acontecer.
Talvez não seja suposto que demos por ela.
É um intervalo no tempo, suspenso, que se limita a acontecer, não acontecendo.
Isento de coordenadas.
Flutuante no vazio.
Onde habitam todas as possibilidades, todas as hipóteses, todas as escolhas...


Hoje, num batimento mais descompassado dos dias, encontrei-me lá.
No centro de um infinito de perspectivas, esperanças e probabilidades.
E em consciência plena, constatei calma e serenamente, que estou precisamente onde devia estar. Onde quero estar.
De todos os caminhos possíveis não queria outro senão este.

E é exactamente por aqui que quero continuar.
E agora sigo, e agora avanço... porque o momento acabou.



Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Perdoas-me os sorrisos que nem sempre tenho para te dar?





Amo-te mesmo quando não os tenho para te oferecer.

Amo-te sempre. Mesmo quando não sorrio.

Perdoas-me os sorrisos em que te falho?

...


Sábado, 10 de Janeiro de 2009

Changes




Afinal o barulho do gelo também se ouve amor. Não é só o do vento e da chuva. Ouve-se demasiado alto nas presenças que afinal não passam de ausências disfarçadas de uma vontade que já não se sente.

Ontem não estiveste, mas eu preciso de te contar que o vento chegou em assobios escuros. Preencheu todos os espaços, entre todos os corpos que se encontravam tão, tão perto... Mas que no entanto se perdiam de vista, numa distância enorme feita de palavras a menos, trocadas na impaciência de um segundo.

Fizeste-me tanta falta lá, talvez me tivesse desiludido menos um bocadinho se estivesses ao meu lado. A insensibilidade aos outros continua a surpreender-me.

Ao vir embora, o gelo que nasceu nos vidros do carro, ia assumindo as cores dos meus sonhos de criança... mas eram só as luzes, eram só os reflexos da viagem. Faltou-me o teu abraço, o teu sorriso, para me diminuir a tristeza.

Haverá alguma coisa errada com as minhas expectativas?...
Desculpa hoje escrever-te assim. Não serão estas as palavras mais bonitas.
Mas também podemos falar de desilusão, não podemos meu amor?



Domingo, 7 de Dezembro de 2008

[ Without you I'm nothing ]





Without you Im nothing - Placebo





Os dias têm tido exactamente os minutos e as horas certas. Nem menos, nem mais. Os perfeitos para nós.

As noites têm sido prolongamentos sedosos e cintilantes de ternuras, gestos em jeito de estrela cadente que dizem muito mais do que o simples movimento deixa transparecer.

As palavras, essas então... são enredos inteiros de mundos só nossos. Notas de carinho sussurradas ao ouvido enquanto a vida "nos" acontece.

Partilha. Cumplicidade. Entrega. Confiança.

Ao teu lado o céu tem sido mais céu e eu alcanço-o a cada dia na tua mão.

Cada espaço que o ponteiro avança livre [ tic-tac ] marca o sorriso do nosso encontro.

Sinto-me muitíssimo feliz. E hoje não sei dizer-te mais nada.

Só sei ficar aqui... a sentir-te.