segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Um café e um arco-íris

 




Percorreu a rua do costume e entrou no café dos candeeiros grandes que reflectiam a luz num mágico jogo de cores.
Sentou-se e pediu um café. Cheio, para preencher os espaços vazios.
Enquanto esperava olhou para os pequenos arco-íris formados no tecto pelas luzes a brincar. Teve saudades do cheiro que tinha o céu quando era criança e quando os arco-íris eram reais e tinham mais do que sete cores.

Pegou na chávena e saboreou o quente do café. Como a areia fina onde enterrava os pés nas tardes de Verão de uma adolescência feliz e intensa.
Sorriu na direcção da mesa em frente, enquanto sentia a solidão arrastar uma cadeira e sentar-se ao seu lado.

Alguém abriu a porta para sair. Sentiu frio, como sentia agora todos os dias ao chegar a casa. Aquele frio que vem de dentro e que sentia de todas as vezes que, em frente à lareira, o fogo lhe reflectia no olhar as ausências em que não queria pensar.

Pagou enquanto fingia que acreditava no olhar simpático que a atendeu e saiu rapidamente a tentar despistar a desilusão.
Mas lá fora o céu já não tinha cheiro. Lá fora o calor das memórias desvaneceu-se no presente.

E enquanto regressava pela rua do costume, já não soube fingir mais, e chorou um rasto salgado para que a solidão não se perdesse no caminho.




terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Das Despedidas.





E foi assim que ela lhe disse que ia embora.

Não houve despedida.

As despedidas não são mais do que prolongamentos sado-masoquistas de instantes que em algum momento no tempo foram felizes.
Prolongamentos com tentáculos viscosos e espessos de nostalgia e ventosas de saudade, que se agarram com desespero ao momento presente e lhe roubam o ar, num aperto fatal que dói e sufoca.

Foi assim que ela lhe disse.

Não houve despedida.

Não há despedida quando se quer ficar.


domingo, 13 de Dezembro de 2009

Águas Selvagens






E se eu te dissesse que toda esta noite o meu sonho foi um extenso areal sedoso, o desejo a perder de vista?...
Sombras de corpos rendidos ao prazer desenhadas pelos reflexos brilhantes da lua.


Os meus seios feitos dunas numa erupção intensa moldada pela memória das tuas mãos...

O vento a suspirar comigo, num gemido compassado de deleite...

O nu do meu corpo a confundir-se com a areia, em movimentos lentos, enquanto os meus olhos fechados preenchem o espaço vazio com a textura quente da tua pele...

O mar numa dança furiosa e carnal a inundar-me muito mais do que o sonho... a transformar-se no teu toque... a ser de repente a tua boca que me invade ternamente...


E os meus lábios subitamente encharcados... água docemente selvagem...

Respiração ofegante.
A brisa leva-me as palavras que, insana, te murmuro.

A vontade ainda por saciar.
O pensamento num espasmo orgásmico de antecipação do prazer...


E este sabor a nós que ficou impregnado em mim desde que acordei.
Estranha sensação de ter sido outra vez tua esta noite.
Selvaticamente.

Sem tu o saberes.




domingo, 29 de Novembro de 2009

Horizonte(s)






De que adianta questionar-me novamente?
Pensar e repensar sobre tudo, se a vida tem apresentado uma terrível falta de criatividade e insiste em mostrar-me só aquilo que se repete?

Talvez seja isso.
Enganei-me ao acreditar que a vida tem sempre muito mais imaginação do que nós.


É urgente ver um horizonte. De linhas bem definidas.
Meu. Não volátil.
Para dobrar pelas vincas já marcadas no papel.
E relembrar. Todos os dias.
 



segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Going through the motions...





Há dias em que a falta que sinto de ti só é mensurável no silêncio oco de uma gaveta que se fecha.

Lá dentro só as palavras.


Aquelas.

As que ficaram por dizer.



terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Sometimes.




..."It's just you and me and the rain"...
Sorri e olhei para o outro lado.


Os sorrisos traduzem e desvendam pensamentos.
O meu sorriso foi um amontoado de palavras. Não o soubemos decifrar. Nenhum de nós.

Sorri e, por momentos, desviei o olhar do tempo.
Tentativa de escapar à necessidade de pensar.
Todas as promessas feitas... Mais uma vez assumidas e reforçadas num sorriso.

Abracei-nos enquanto te abraçava. E sorri enquanto te beijava porque a alma nunca aprendeu a mentir e repete a verdade vezes sem conta.

Sometimes I think. Sometimes I don't.

Sometimes.


terça-feira, 22 de Setembro de 2009

À boleia do Outono





Já caiu o pano de mais um dia.
Ouve-se ao longe um desejo a nascer.
Será talvez apenas uma porta que se entreabre. Mas não me apetece só isso hoje. Quero que seja uma vontade a ganhar forma.
Preciso de confirmar fora de mim esta energia que ainda me é estranha e que fervilha e me queima por dentro.
Preciso que não haja contradição nos movimentos desajeitados que o meu pensamento vai fazendo.
Tento adivinhar o trajecto sem projectar o meu olhar muito à frente dos meus passos. E as respostas vão-me chegando em forma de serenidade.
Ouve-se ao longe um desejo a crescer.
Sem medo de ausências ou desencontros.
Há plenitude no ar.
Fico a olhar para este lugar onde agora a dor é tão diferente.
E as distâncias significam apenas isso. Espaços que podemos sempre percorrer...

Já caiu o pano de mais um dia.
A minha alma sossega.
Faço parte do todo.
Pergunto-me se...
... e sorrio porque sei que Sim.