quinta-feira, 8 de julho de 2010





Hoje esqueci-me de adormecer.

E fiquei a inventar histórias para mim.

A fazer de conta que a mais bonita de todas ainda não me aconteceu.


terça-feira, 22 de junho de 2010

Está tanto vento...




Tantos ventos que me tocam a pele.
Uns são de hoje ou de ainda ontem.
Outros são já só ventos da memória. Mas não se sentem menos por causa disso.
E revolvem tudo à sua passagem.
Brisas antigas que escaparam ardilosamente da palavra "passado" e se fazem presentes.

E o vento cerca-me. E o vento prende-me. E o vento abraça-me.
Estranha compreensão essa, do tempo em relação aos ventos.
Prolonga-os num contínuo que só a nós escapa.
Porque nós concebemos a palavra Fim.
Mas o tempo não.


 

terça-feira, 1 de junho de 2010

Boats against the current



Só uma interrogação. Apenas uma. E no entanto a resposta seria suficiente para definir tudo. Seja lá o que isso for. Tudo.
Dantes era assim que eu dizia. Era assim que eu pensava. Era assim que eu sentia:

O teu silêncio soa a dezenas de portas que se fecham, uma a uma. Um eco que embate nas paredes frias do meu imenso medo de já não te ter.
E que se prolonga até eu ter a certeza que é esse o ruído de tu já não estares aqui.

Já não é assim agora. 
O medo? Foi arrastado há muito pelas ondas de um oceano que vive dentro de mim e que eu desconhecia.
Agora ficou só a interrogação. Sem receios. Só a necessidade de qualquer coisa mais parecida com uma certeza.
Uma maré mais calma, que me empreste a sua cama de ondular suave para descansar e da sua espuma me faça sonhos.
Só isso.
Nada mais.
Não ser mais um barco contra a corrente do teu mar.


sexta-feira, 16 de abril de 2010




Já não sei qual é o caminho de volta à tua ternura.

Quando tinhas canções no fundo do mar dos teus olhos.
Quando, definitivamente, eu existia no teu olhar.



 

quinta-feira, 25 de março de 2010

(Des)Esperança




A voz do locutor de rádio chega-lhe de longe, como se ainda fizesse parte do resto de um sonho que se esqueceu de acabar.
- Durante a manhã as condições são favoráveis à ocorrência de trovoadas...
Percebe que está acordada quando é invadida pela vontade enorme de voltar a fechar os olhos e dormir. Só dormir. É dispensável sonhar...


25 de Março de 2010 e as primeiras notícias do dia...O que lhe interessa a ela o que se passa para lá daquelas paredes que o seu olhar abarca? Se ainda dissessem que o Sol lhe vai explodir dentro do quarto!
Mas nem o mais pequeno indício de luz. Nem o do rádio que, neste momento, ela desliga como se desligasse tudo o que nela ainda resta de esperança. Ou expectativa. Ou promessa. Já não se lembra como se diz, quanto mais como se sente...

Mas há uma coisa que ela sabe. Talvez seja só essa. Mas sabe-a sem suspeita. Com uma fé inabalável.
Que não importa quantas manhãs ainda vão nascer. Quantos dias ainda vão acontecer. Quantas noites vão acabar. 
Não interessa se é um fragmento de um segundo ou antes uma eternidade que ainda falta até ao fim...
Mas ela sabe que tudo fica sempre por dizer. Tudo fica por fazer. O amor todo por acontecer. A verdade... toda por acreditar.


E então, ao som do primeiro trovão, encolhe-se e aconchega-se no seu desalento.
Talvez assim a vida se lembre de a esquecer.






segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Um café e um arco-íris

 




Percorreu a rua do costume e entrou no café dos candeeiros grandes que reflectiam a luz num mágico jogo de cores.
Sentou-se e pediu um café. Cheio, para preencher os espaços vazios.
Enquanto esperava olhou para os pequenos arco-íris formados no tecto pelas luzes a brincar. Teve saudades do cheiro que tinha o céu quando era criança e quando os arco-íris eram reais e tinham mais do que sete cores.

Pegou na chávena e saboreou o quente do café. Como a areia fina onde enterrava os pés nas tardes de Verão de uma adolescência feliz e intensa.
Sorriu na direcção da mesa em frente, enquanto sentia a solidão arrastar uma cadeira e sentar-se ao seu lado.

Alguém abriu a porta para sair. Sentiu frio, como sentia agora todos os dias ao chegar a casa. Aquele frio que vem de dentro e que sentia de todas as vezes que, em frente à lareira, o fogo lhe reflectia no olhar as ausências em que não queria pensar.

Pagou enquanto fingia que acreditava no olhar simpático que a atendeu e saiu rapidamente a tentar despistar a desilusão.
Mas lá fora o céu já não tinha cheiro. Lá fora o calor das memórias desvaneceu-se no presente.

E enquanto regressava pela rua do costume, já não soube fingir mais, e chorou um rasto salgado para que a solidão não se perdesse no caminho.




terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Das Despedidas.





E foi assim que ela lhe disse que ia embora.

Não houve despedida.

As despedidas não são mais do que prolongamentos sado-masoquistas de instantes que em algum momento no tempo foram felizes.
Prolongamentos com tentáculos viscosos e espessos de nostalgia e ventosas de saudade, que se agarram com desespero ao momento presente e lhe roubam o ar, num aperto fatal que dói e sufoca.

Foi assim que ela lhe disse.

Não houve despedida.

Não há despedida quando se quer ficar.


domingo, 13 de dezembro de 2009

Águas Selvagens






E se eu te dissesse que toda esta noite o meu sonho foi um extenso areal sedoso, o desejo a perder de vista?...
Sombras de corpos rendidos ao prazer desenhadas pelos reflexos brilhantes da lua.


Os meus seios feitos dunas numa erupção intensa moldada pela memória das tuas mãos...

O vento a suspirar comigo, num gemido compassado de deleite...

O nu do meu corpo a confundir-se com a areia, em movimentos lentos, enquanto os meus olhos fechados preenchem o espaço vazio com a textura quente da tua pele...

O mar numa dança furiosa e carnal a inundar-me muito mais do que o sonho... a transformar-se no teu toque... a ser de repente a tua boca que me invade ternamente...


E os meus lábios subitamente encharcados... água docemente selvagem...

Respiração ofegante.
A brisa leva-me as palavras que, insana, te murmuro.

A vontade ainda por saciar.
O pensamento num espasmo orgásmico de antecipação do prazer...


E este sabor a nós que ficou impregnado em mim desde que acordei.
Estranha sensação de ter sido outra vez tua esta noite.
Selvaticamente.

Sem tu o saberes.




domingo, 29 de novembro de 2009

Horizonte(s)






De que adianta questionar-me novamente?
Pensar e repensar sobre tudo, se a vida tem apresentado uma terrível falta de criatividade e insiste em mostrar-me só aquilo que se repete?

Talvez seja isso.
Enganei-me ao acreditar que a vida tem sempre muito mais imaginação do que nós.


É urgente ver um horizonte. De linhas bem definidas.
Meu. Não volátil.
Para dobrar pelas vincas já marcadas no papel.
E relembrar. Todos os dias.
 



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Going through the motions...





Há dias em que a falta que sinto de ti só é mensurável no silêncio oco de uma gaveta que se fecha.

Lá dentro só as palavras.


Aquelas.

As que ficaram por dizer.



terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sometimes.




..."It's just you and me and the rain"...
Sorri e olhei para o outro lado.


Os sorrisos traduzem e desvendam pensamentos.
O meu sorriso foi um amontoado de palavras. Não o soubemos decifrar. Nenhum de nós.

Sorri e, por momentos, desviei o olhar do tempo.
Tentativa de escapar à necessidade de pensar.
Todas as promessas feitas... Mais uma vez assumidas e reforçadas num sorriso.

Abracei-nos enquanto te abraçava. E sorri enquanto te beijava porque a alma nunca aprendeu a mentir e repete a verdade vezes sem conta.

Sometimes I think. Sometimes I don't.

Sometimes.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

À boleia do Outono





Já caiu o pano de mais um dia.
Ouve-se ao longe um desejo a nascer.
Será talvez apenas uma porta que se entreabre. Mas não me apetece só isso hoje. Quero que seja uma vontade a ganhar forma.
Preciso de confirmar fora de mim esta energia que ainda me é estranha e que fervilha e me queima por dentro.
Preciso que não haja contradição nos movimentos desajeitados que o meu pensamento vai fazendo.
Tento adivinhar o trajecto sem projectar o meu olhar muito à frente dos meus passos. E as respostas vão-me chegando em forma de serenidade.
Ouve-se ao longe um desejo a crescer.
Sem medo de ausências ou desencontros.
Há plenitude no ar.
Fico a olhar para este lugar onde agora a dor é tão diferente.
E as distâncias significam apenas isso. Espaços que podemos sempre percorrer...

Já caiu o pano de mais um dia.
A minha alma sossega.
Faço parte do todo.
Pergunto-me se...
... e sorrio porque sei que Sim.



quinta-feira, 27 de agosto de 2009

La Nuit





Gosto destas noites que trazem dentro delas esse paladar doce e embriagante a infinito.
Levantar os olhos e ver o todo. Dessa sensação boa de não sentir o fim. Como se às vezes, só por instantes, o "para sempre" pudesse ser mais do que só um desejo.

Gosto deste vento vaporoso que me segreda ao ouvido palavras que não sei decifrar. E da certeza que tenho de que não é tão importante assim saber traduzi-las. Apenas deixá-las fazerem parte de mim.

Um raio de luar transporta uma carícia.
Um brilhar mais cintilante de uma qualquer estrela leva um beijo de saudade.
O som da onda que quebra no escuro da praia conta um segredo.

A noite. Silencioso e discreto mensageiro este, que se veste de negro, enquanto traz e leva pedaços de nós. Pequenos pontinhos de luz agarrados ao infinito.

Gosto que seja noite agora.
É terna e quente a textura na minha pele.
É suave e doce na minha boca.
Como se fosse o beijo de um amante ausente que o momento traz até mim.



quarta-feira, 22 de julho de 2009

Lembras-te?





Lembras-te?

Não te ouço, mas consigo imaginar-te a acenar que sim. Que te lembras tão bem quanto eu.

Porque por mais voltas que os nossos mundos dêem, num pedaço de nós há-de ser sempre um bocadinho assim.

São as tais tatuagens na alma que só lá aparecem e permanecem quando realmente valeu a pena.

E, de repente, o hoje faz-se ontem.
E a saudade afinal é amor.

...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Slow Motion




Respiro em câmara lenta.
Assim acelero a forma como o mundo me chega.
Mas absorvo-o devagar.
Prolongo a onda na sua curva perfeita antes da sua igualmente perfeita rendição.
E só depois desço as pálpebras.
Rapidamente, para que dentro de mim, o ondular desse estranho mar permaneça lento. Uma espécie de eternidade que falsamente fabrico para que o que acontece dure mais. O que existe, exista mais.

Em câmara lenta às vezes até a tristeza me faz sorrir.
Em câmara lenta apercebo-me de como afinal a rua está vazia.
A rua está muito mais vazia hoje.
...
...
...
Visto o casaco e adormeço. Ou morro.
Sempre a mesma dúvida.
...
...


segunda-feira, 20 de abril de 2009

Roteiros Interiores




A voz dele chegou-lhe suave do outro lado da linha. Do outro lado do amor.

Foi no dia da mesma manhã em que a água lhe pareceu mais fria. Mais áspera a cair na pele nua que as suas mãos apertam na tentativa de reencontrar a sensação das dele. As dele. Que tacteiam agora coisas diferentes, coisas que ela não conhece. Do outro lado da paixão.

A voz dele fez com que ela percorresse outra vez todos os caminhos interiores que conduzem inevitavelmente aquela ternura tão forte que faz chorar. Aquela ternura que se sente poucas vezes numa vida. Do mesmo lado do amor.

Roteiros interiores de estradas humedecidas por lágrimas que ela já não sabe chorar. As que chora agora são diferentes. Não chegam a secar. Ele não está lá para as afastar.
Mas mesmo do outro lado da linha ela sente-lhe o carinho no olhar.
Quase adivinha o sorriso sincero no encontro das duas vozes. Aquele sorriso que gostava de poder guardar em qualquer sítio mais especial do que a simples memória. Do outro lado da vida.

Ela não conseguiu dizer-lhe tudo. Tentou, mas sabe que nunca se consegue dizer tudo.
Ás vezes, como uma criança, atira-se para cima da cama ao som de uma música antiga, e deixa-se ficar a imaginar que ele sabe. Que ele sabe tudo o que ela sente. E que acredita. Do outro lado do sonho.

Custou-lhe lembrar-se que a voz dele ia continuar depois de pousar o auscultador. Não para ela. Mas do outro lado da linha. Confortou-se com a suavidade que durante uns minutos a acariciou. Não foi sempre a voz dele uma carícia?... Do outro lado do tempo.

Ficou em silêncio. Fechou os olhos e deixou-se viajar.
Por espaços e recordações e sítios que não conhecem longe nem perto.
O auscultador suspenso na mão. Como se fosse só mais uma frase, como se fosse só mais um beijo. Suspensos...

Todo o amor que ela sente por ele. Aqui. Como uma brisa. Do outro lado de Mim.



domingo, 15 de março de 2009

[ . ]






Ás vezes não pensar é uma questão de sobrevivência.
Tento não pensar. Mas dói-me tanto o silêncio.
E este vazio que é tão pesado e tão cheio de imagens às quais já não sei dar sentido.

Perdi-me no caminho e já não sei se me lembro das minhas promessas.
Vou lá fora procurar qualquer coisa que não seja esta ausência de ti, mas é de noite. E todas as noites eram nossas.
Fujo para dentro de mim. Mas é precisamente lá onde mais estás.

Não tenho conseguido descodificar os dias. Movo-me por instinto e fico à espera que as horas acabem por se cansar mais do que eu e decidam deixar de existir.
Sento-me sozinha em espaços que ainda têm pedaços de nós e dou por mim a pedir que me deixem chorar. Só mais um bocadinho... Para ver se acordo ou se passa a culpa por não ter sabido desenhar um sorriso feliz no teu rosto todos os dias.

São 22h43m. Há muito que a escuridão se instalou. Ouço ao longe o barulho do mundo, da vida a acontecer. Lá fora, onde as estrelas estão demasiado altas.
Os meus olhos ardem.

Sinto-Me tão longe de mim.

[ . ]


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Intersecções





Ás vezes, apenas por um momento, a vida pára.
Para nesse instante podermos ser tudo.
Sentir tudo.
Qualquer coisa que tenhamos em mente pode, de repente, tornar-se real.
Talvez nem sempre estejamos suficientemente atentos para notarmos que está a acontecer.
Talvez não seja suposto que demos por ela.
É um intervalo no tempo, suspenso, que se limita a acontecer, não acontecendo.
Isento de coordenadas.
Flutuante no vazio.
Onde habitam todas as possibilidades, todas as hipóteses, todas as escolhas...


Hoje, num batimento mais descompassado dos dias, encontrei-me lá.
No centro de um infinito de perspectivas, esperanças e probabilidades.
E em consciência plena, constatei calma e serenamente, que estou precisamente onde devia estar. Onde quero estar.
De todos os caminhos possíveis não queria outro senão este.

E é exactamente por aqui que quero continuar.
E agora sigo, e agora avanço... porque o momento acabou.



terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Perdoas-me os sorrisos que nem sempre tenho para te dar?





Amo-te mesmo quando não os tenho para te oferecer.

Amo-te sempre. Mesmo quando não sorrio.

Perdoas-me os sorrisos em que te falho?

...


sábado, 10 de janeiro de 2009

Changes




Afinal o barulho do gelo também se ouve amor. Não é só o do vento e da chuva. Ouve-se demasiado alto nas presenças que afinal não passam de ausências disfarçadas de uma vontade que já não se sente.

Ontem não estiveste, mas eu preciso de te contar que o vento chegou em assobios escuros. Preencheu todos os espaços, entre todos os corpos que se encontravam tão, tão perto... Mas que no entanto se perdiam de vista, numa distância enorme feita de palavras a menos, trocadas na impaciência de um segundo.

Fizeste-me tanta falta lá, talvez me tivesse desiludido menos um bocadinho se estivesses ao meu lado. A insensibilidade aos outros continua a surpreender-me.

Ao vir embora, o gelo que nasceu nos vidros do carro, ia assumindo as cores dos meus sonhos de criança... mas eram só as luzes, eram só os reflexos da viagem. Faltou-me o teu abraço, o teu sorriso, para me diminuir a tristeza.

Haverá alguma coisa errada com as minhas expectativas?...
Desculpa hoje escrever-te assim. Não serão estas as palavras mais bonitas.
Mas também podemos falar de desilusão, não podemos meu amor?