sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Hoje



Hoje cheguei a casa zangada com a vida por não me apresentar mais caminhos. Mais alternativas.

Hoje questionei tudo. Duvidei de tudo. Tive todas as certezas. E nenhuma.

Hoje senti-me nua e exposta e frágil, mesmo trazendo vestido o sorriso que alguns viram.

Hoje chorei muito. Como se a alma se pudesse curar assim.

Hoje quis dizer-te tudo e acabei, mais uma vez, por não te dizer quase nada, sufocada no meu próprio silêncio pesado e tonto de tristeza...


"I was the one that made you happy
I was the one that eased the pain
But I'm the reason that you're crying now
My own tears scattered by the rain"

(Sacrifice - Anouk)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Momentos



Muitas vezes, enquanto a vida continua a acontecer à nossa volta, não temos outra escolha para além de nos deixarmos ser solitários. Penso nisso agora, num momento raro em que te diria tudo o que digo a mim mesma.

Tantas foram as vezes em que vim embora. Sempre sem saber se continuavas a gostar de mim, mesmo quando já não eras capaz de me ver. Mesmo quando parecia que os nossos mundos estavam demasiado afastados.

O frio está insuportável. Obriga-nos a fechar ainda mais qualquer coisa indefinida que existe dentro de nós. Por isso vim aqui. Para tentar ficar mais perto. Porque o desejo de ti também é insuportável. Faz o abraço que tenho guardado para nós parecer absurdamente diferente de todos os outros. Não apenas um enlaçar dos nossos corpos apertados um no outro, mas qualquer coisa mais. Um instante de transcendência, se é que me é permitida tal presunção... uma essência que fique no meio da raiva e do amor que te tenho.

O frio está insuportável. Mas continuo, inabalável, a alimentar os meus afectos tolos...

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Dualidades...



Hoje escrevo-te com esta estranha sensação de estar a viver num presente eterno.

Eterno por durar há já tanto tempo.
Eterno por ser já tão conhecido.
Eterno por ser, mesmo assim, ainda tão imprevisível...

Hoje escrevo-te perfeitamente consciente da violência das escolhas que têm que ser feitas. Porque sei que toda a escolha é uma renúncia. Toda a decisão é o recusar definitivo de qualquer outra possibilidade.

Hoje escrevo-te, mais uma vez...
Talvez porque hoje eu já saiba que toda a posse implica um renunciar aos objectos que não possuímos.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005


Porque é que continuas a prometer-me aquilo que nunca me poderás dar?
E porque é que me deste aquilo que nunca ninguém me tinha prometido?

A saudade que hoje sinto de ti assemelha-se a uma melodia quente, líquida e muito distante. Obrigavas-me sempre a ver o luar, mesmo quando eu não queria...


"And I can't sleep
I need to tell you
Goodnight"
(Evanescence-You)



domingo, 13 de novembro de 2005

And if I say to you tomorrow...


A chuva é torrencial. Parece que faz o mundo crescer. E ele cresce como a dúvida que me assalta neste momento: para sempre ou nunca mais?

O ruído dos teus abraços sufoca-me. Interrogo-me. Questiono tudo. Pergunto porquê. Verifico. Não encontro soluções. Muitas hipóteses. Ainda mais consequências. Canso-me de pensar. Na rapidez de um segundo desisto. De tudo. Recordo. Todas as vozes me irritaram hoje. Todas. Sem nenhuma excepção. Será esta a conclusão mais aterradora desta noite?

Atiro a máscara para o chão. Sinceramente, há muito tempo que sei que já não vale a pena. Não vale a pena usá-la se não consegue esconder os sorrisos que te amam.

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Por engano...



Deixamo-nos enganar pelos nossos afectos enquanto lá fora o mundo morre. Todos os instantes nos deixamos envenenar suavemente, sugando a liquidez dos dias e das noites que se sucedem sem sentido.

Entusiasmamo-nos ingenuamente com a nossa realidade, porque nos esquecemos sempre que nada da nossa realidade é real para os outros.

E depois caímos nessa noite terrível, cheia de estrelas que não brilham, cheia de um silêncio ensurdecedor, cheia de um luar negro, pesado e frio.

Esquecemo-nos frequentemente de viver, e vamos existindo calma e passivamente numa constante sátira de nós mesmos...

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Apetecia-me...



...sair daqui. Cortar a estrada. Assimilar o sangue do sol e contigo construir um novo conceito que quebrasse as barreiras do pensamento.

Queria dar vida ao lado mais escuro da lua e ver-te sorrir na cara do tempo. Queria que me levasses a ver o mar e que deixasses o vento transportar a minha alma para dentro de ti.

Deixarias na areia húmida as marcas de uma presença que facilmente seriam levadas pela água, mas que nem por isso deixaria de ter sido real. Uma presença nossa, indefinível no tempo e no espaço, mas forte como a onda que bate na praia com a fúria de um condenado preso à eternidade.

Por hoje nada mais. Desculpa.

A noite disse-me que tenho no olhar a promessa de um beijo que não tarda...

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Quero dizer-te porquê


Quero dizer-te só mais uma coisa. O porquê destas "conversas".

Não te escrevo só porque isso me faz sentir bem. Não te escrevo só porque gosto muito de ti.

Escrevo-te, também, para que continue a existir alguma coisa que nos una e nos aproxime.

Não quero que "nós os dois" seja igual a nada. É mais fácil morrer de nada do que de dor. Contra a dor podemos revoltar-nos, contra o nada não. Por isso prefiro que continuemos a ser alguma coisa. Os dois juntos. Uma breve recordação. Uma história por acabar. Mas alguma coisa...

domingo, 16 de outubro de 2005

Wasted Time


"I remember what you told me before you went out on your own:
Sometimes to keep it together we got to leave it alone.
So you can get on with your search, baby,
And I can get on with mine,
And maybe someday we will find
That it wasn't really wasted time."

(Eagles- Wasted Time)


segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Carícias




Hoje, ao acariciar a tua pele, fui a espuma branca da onda que quebra numa vertigem de prazer.

Mas calei essa minha viagem interior.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Desejo


E apenas ao pensar nessa imagem, imaginar os gestos que fazes para levar o cigarro aos lábios, tentar descobrir qual a temperatura da tua pele neste momento, sou invadida por um desejo primário de ti. Quero-te!...

Quero conhecer o sangue que corre em ti, quero saber de cor cada canto do teu corpo, quero poder morrer na tua boca para poder renascer no teu olhar. Quero que as tuas mãos moldem o meu corpo e lhe dêem uma nova forma e quero sentir a paixão e o desejo na ponta dos teus dedos.
Quero amar-te com tudo o que é matéria e com tudo o que é espírito em mim.

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Noites Velhas



Noites mornas e ternas.
Deu-se absolutamente tudo o que havia para dar.
Não ficou nada por dizer.
Excepto o que nasceu depois.
Muitas noites sem rumo, muitos gritos da alma que se afundavam na realidade que não podíamos nem sabíamos mais combater.
Noites em que nos perdíamos e nos reencontrávamos vezes sem conta.
Só porque era bom.
Só porque era muito difícil ficar sempre.

terça-feira, 20 de setembro de 2005

Não quero que o quarto seja este quando eu disser as palavras que até hoje ainda ninguém ouviu.

Não quero que sejam estes os lençóis. Devem ser outros, de outra cor.

A luz não pode ser tão forte. Tem que ser mais suave para não sufocar a verdade.

Não quero que o quarto seja assim. Porque nesse instante não pode existir mais nada para além dele.

Quando eu disser as palavras que nunca disse...

Os lençóis onde eu estiver deitada devem confundir-se comigo. Misturar-se. Diluir-se em mim. Para formar uma essência que se dê a conhecer apenas nesse breve momento e que logo depois se dissolva, para nunca mais existir...

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Nunca falamos sobre hoje, pois não?

Hoje venho cá apenas para te dizer que, de repente, os dias voltaram a passar. Os objectos que me rodeiam deixaram de estar cobertos por uma espessa camada de pó e revelaram-me novamente a sua natureza em forma de cor, textura e geometrias variadas.

Hoje venho cá para te dizer que não me importo que estejas longe. Prefiro essa ausência à que sentia quando estavas presente. Subitamente a distância de mim aos outros dissipou-se e deu lugar a um mar que me transporta na sua ondulação sem destino pré-definido. E não me angustia mais não saber exactamente onde me vai conduzir.

Hoje dei por mim a vibrar novamente só por notar que a minha pele ainda é macia e quente, que a minha boca ainda tem a forma do desejo e que as minhas mãos ainda mergulham sofregamente na realidade com a certeza inabalável de que vale a pena ousar...

Olhei o meu reflexo em tudo o que à minha volta mo devolve. E, surpreendida, constato que estou a sorrir...

Hoje vim outra vez falar contigo. Afinal, nunca falamos sobre hoje, pois não?

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Segredo

Tenho andado alheada de sonhos e sido cúmplice de uma realidade que antes não deixava aproximar-se. Conivente e comparsa num plano que não sei como termina.

Vou movendo o meu corpo indiferente à brisa que me rouba e leva para muito longe as essências de outros dias...

Posso dizer-te um segredo? Eu sei. Sou sempre assim um bocadinho louca.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Vou fazer-te uma pergunta...

...que me fizeste há bem pouco tempo atrás: diz-me o porquê desta dor que não passa.
Não passa. E o teu olhar está mesmo aqui à minha frente. E eu choro enquanto te vejo olhar ternamente para mim, a sorrir. E choro enquanto o meu corpo se desfaz numa súplica dolorosa que te possa trazer a felicidade que sinto que mereces. E choro também enquanto me iludo conscientemente, querendo convencer-me que essa felicidade que desejo para ti possa ser, toda ela, partilhada comigo.

A lua está fria. E distante. Tudo está longe de mim. Tenho medo. Tanto medo de deixar que a vida continue a magoar-me. Não me dizes uma palavra. Nada para apaziguar um pouco esta tempestade que destrói tudo dentro e fora de mim. Tenho frio. E choro lágrimas quentes que me queimam a cara e que chamam por ti. Tenho vontade de gritar mas não o faço. Ainda há uma parte de mim que teme a loucura.

O ar vai ficando mais pesado porque o tempo não passa. Há coisas a começar e a acabar, neste exacto instante, vidas e sonhos, e ondas do mar e estrelas, e palavras e encontros... E eu estou aqui parada. Não sei se à espera que algo comece ou acabe em mim. E o mundo chega-me como um estranho que não convidei para minha casa. E em todos os gestos, meus e dos outros, parece-me ver uma despedida...

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Time heals, but I'm forever broken

Tudo me faz doer por não poder ser partilhado contigo. E aquilo que me faz lembrar de ti, magoa-me também, numa dor pequena e aguda, porque traz para perto a tua distância, tornando demasiado presente a tua ausência.

Estou cansada. Há ecos estranhos em mim. Ecos de vivências que se confundem no espaço e no tempo, porque já não têm espaço nem tempo concretos. São apenas ecos, ressonâncias de felicidades que já existiram. Ecos de tristezas profundas e envolventes. Ecos de mim, perdidos em mim...

O que é que se faz num mundo destes, que na maior parte das vezes nem sequer é mundo... é sim um abismo que, cruelmente, não nos deixa vislumbrar o seu fundo e por isso não nos permite adivinhar o instante da queda...

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

Não vou por aí

(...)
Ide... tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura:
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios!

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!


Excerto do "Cântico Negro" - José Régio

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

(...)

Como é que eu posso dizer-te o que se passa se tu não estás aqui?

Quando o que se passa é precisamente tu não estares aqui.

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Falsa manhã

Hoje ainda não te vi. Mas nem por isso os relógios pararam ou o dia deixou de nascer. Estás algures por aí, e apenas esse facto faz com que o tempo continue a passar, mesmo que ninguém saiba o que isso significa.

Tenho novamente a tua voz em forma de desejo, o teu olhar com o som de nós os dois e o teu sorriso como prova da existência...ou da sua falsidade...

O dia está lindo. A frieza está ausente. A minha tristeza é tão subtil que mal consigo senti-la... Mistura-se suavemente com o aroma forte da manhã e instintivamente vai ter contigo. A nossa melodia ecoa, ora longe, ora próxima, e atenua os sinais da minha tristeza, mas não a sua origem.

E é surpreendida que, nesta manhã fria de desunião, descubro que realmente ainda te quero.